Isabelle, Brazil
O que realmente me levou a esse campo foi a escuta. Escutar pessoas que se sentiam reduzidas a um diagnóstico, a um protocolo, a um número. Perceber quantas vezes o tratamento se concentrava no tumor e esquecia a pessoa que estava vivendo aquele processo. Senti que algo essencial estava faltando — e quis fazer parte de um cuidado que não silenciasse emoções, não apressasse o sofrimento e não tratasse ninguém como um problema a ser resolvido.
Trabalhar com pessoas afetadas pelo câncer se tornou, para mim, um compromisso: caminhar ao lado delas em um dos momentos mais frágeis da vida, oferecendo não apenas conhecimento técnico, mas presença, respeito e dignidade.
O maior desafio é o tempo... ou melhor, a falta dele. Os sistemas de saúde são estruturados para velocidade, produtividade e padronização, enquanto as pessoas precisam de escuta, individualização e espaço.
O que mais me ajuda é nunca esquecer que ninguém é apenas um paciente. Cada pessoa chega com uma história de vida, vínculos, crenças, medos e expectativas que precisam ser considerados.
Muitas vezes, o cuidado mais potente não é uma resposta pronta, uma prescrição ou uma solução imediata, mas permanecer ao lado de alguém enquanto ele atravessa a incerteza.
O sistema de saúde avançou muito em tecnologia, tratamentos e taxas de sobrevida e isso precisa ser reconhecido. O cuidado multidisciplinar, as iniciativas de educação em saúde e os esforços por decisões compartilhadas são passos importantes.
Ainda existe uma grande dificuldade em integrar, de forma real, as dimensões emocionais, sociais e subjetivas do cuidado. Falta continuidade, falta tempo para diálogo, falta suporte para famílias e cuidadores. Muitas vezes, as pessoas são convidadas a participar, mas não verdadeiramente ouvidas.
A maior lacuna é tratar o cuidado centrado na pessoa como um complemento quando ele deveria ser a base de todo o processo.
O cuidado centrado na pessoa começa com uma mudança simples, mas profunda: enxergar a pessoa antes da doença. Não perguntar apenas “qual é o tratamento indicado?”, mas também “quem é essa pessoa e o que ela precisa para se sentir segura, respeitada e amparada?”
Meu recado para profissionais e organizações é que a compaixão não é um atributo “extra” ela é uma necessidade clínica. Escutar reduz sofrimento, fortalece vínculos e melhora a adesão ao cuidado. Um cuidado que respeita a individualidade não enfraquece a ciência, ele a torna mais potente.
Se queremos que o cuidado em oncologia seja verdadeiramente eficaz, ele precisa ser humano antes de tudo porque cuidar não é apenas prolongar a vida, mas preservar dignidade, sentido e qualidade de vida.